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quarta-feira, 18 de maio de 2011

Projeto Bossa Nova

Olá! A todos

Venha conhecer ao vivo e a cores o
Projeto Bossa Nova.
A moradia instantânea na
Conferência Internacional de Cidades Inovadoras – CICI 2011


CIETEP – FIEP, Avenida Comendador Franco, 1341.
De 18 à 20 de maio de 2011
Das 09h00min às 19h00min.

Desejando marcar um horário ligar para
(41) 9917.2052, (41) 9856.2773 ou (41) 9163.8382
Arquiteta Rebeca Paciornik Kuperstein
Diretor Técnico – CREA 11.130 D/PR
Mapa de localização de “nossa moradia”





 

terça-feira, 10 de maio de 2011

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Um amor, uma cabana

Nossos pais diziam que para nos tornar seres completos era preciso escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho. Meu pai, que era engenheiro, acrescentava: construir uma casa. Escrevi livros, até demais, tenho um filho e plantei uma árvore, no jardim da casa onde cresci, uma muda de pau-rosa, ou flor-do-paraíso, que havia sido esquecida ao lado de uma cova estreita e funda, uma muda frágil, com poucas folhas, mais alta do que a menininha que a salvou. A muda cresceu, transformou-se em um majestoso flamboyant, coberto de flores vermelhas.
Mas nunca construí uma casa. Sonho com isso. Gostaria de construir uma casa de taipa, com as próprias mãos, amassar o barro, atirar o barro nos enxaiméis e fasquias de madeira. Não se trata de uma idiossincrasia, nem de um gesto poético, muito menos uma visão religiosa. A taipa é um material apaixonante. Tem uma nobreza histórica. As reforçadas casas e igrejas coloniais brasileiras foram feitas de taipa de pilão, há ainda hoje na Alemanha casas em taipa construídas no século 13, a própria muralha da China, símbolo da solidez, é taipa. A taipa tem mais de 9.000 anos, serviu a construções no Egito, na Mesopotâmia.
Um amigo meu, arquiteto, projetou e construiu belíssimas casas de taipa. Ele se chama Cydno da Silveira e o conheci em Brasília, poucos anos depois de plantar meu flamboyant. Cydno estudava na UnB quando, observando residências rurais, surpreendeu-se com a quantidade de casas de taipa, feitas de maneira intuitiva, quase como as abelhas fazem suas colmeias. Nunca tinha ouvido falar naquilo em seu curso, e percebeu o quanto era elitista o ensino de arquitetura. Fotografou as casas de taipa todas que encontrava. Ele se formou, passou a trabalhar com as técnicas industriais, como concreto armado, mas nunca esqueceu a taipa. Deu-se conta de que não sabia construir da maneira mais rudimentar e resolveu aprender. Estudou durante anos a técnica. Descobriu taipas diversas, como a de pedra, usada no Piauí, a de madeira com bolas de barro, vista no Maranhão, a taipa de carnaúba, a taipa mista de moldura de tijolos, a taipa feita com sobras de madeira e sucata. Descobriu a maleabilidade incrível do barro, novas estruturas, novos dimensionamentos do espaço e imensas possibilidades de melhoria na técnica tradicional. Estudou a combinação com elementos da cultura industrial, mas sem descaracterizar a antiga construção de estuque.

A casa de taipa nasce do chão, vem da natureza, é construída com o material que está ali, a terra e as árvores e tem uma grande contribuição a dar a um país que não oferece moradia para todos, como o Brasil. O projeto de casas populares, que Cydno afinal desenvolveu, ensina o homem a construir sua própria casa e a cuidar dela. Tem o sentido de manter viva a sabedoria popular da taipa. Está sendo feita uma experiência na cidade de Bayeux, Paraíba, para treinamento de pessoas no projeto, construção, melhoria e restauração de edificações em taipa de pau-a-pique. Não recebendo a casa pronta, mas construindo-a, o dono toma por ela mais amor. Se for privado de sua terra, ele saberá construir uma nova habitação. O saber lhe pode servir como meio de vida, e a profissão tem um nome: taipeiro.
A casa de taipa é uma grande alternativa para a habitação no meio rural e nas periferias urbanas. Típica das populações mais pobres, é uma forma de independência, uma estratégia milenar de abrigo, preservada nos sertões brasileiros especialmente pelas mulheres. O sistema de autoconstrução elimina a aquisição de material, o transporte, o crédito, elimina o BNH e o processo industrial de construção, permite o mutirão e, principalmente, educa. É rápida a construção, usa-se mão-de-obra não qualificada, e é um instrumento para a posse imediata da terra. Permite uma construção tanto de caráter provisório quanto perene e a técnica pode ser levada a lugares onde não chega o material industrializado. Uma simples caiação evita a umidade e basta fechar as frestas onde o barbeiro gosta de fazer seu ninho. Integra a família, as mulheres e as crianças trabalham na construção e integra o grupo na sociedade quando em regime de mutirão. Apesar de tudo isso é completamente ignorada pelos meios administrativos, considerada sub-habitação, não há nem mesmo linha de crédito nos órgãos do governo para casa de taipa. Marcos Freire, antes de morrer, estava tratando de corrigir esse lapso. Nas esferas “civilizadas” há dificuldade em compreender a taipa. Não há legislação nem a favor nem contra. Quando da construção de Carajás, Cydno realizou um projeto de moradias em taipa de pau-a-pique para os empregados, utilizando o fartíssimo material do lugar. Seu projeto não foi aceito e os tijolos, o cimento e o ferro viajaram de avião até Carajás.
Na taipa não há desperdício de material e nem agressão ecológica, a madeira usada nas estruturas é em quantidade cinco vezes menor do que a necessária na queima de tijolos para uma parede das mesmas dimensões. “A tomada de consciência ecológica, surgida como uma ponte de luz no extremo mais estreito do túnel da crise de energia, vai servindo para provar-nos que nem sempre o habitat humano está condenado a ser feito de concreto, aço e vidro. Assim, quando tudo em arquitetura parecia dirigir-se para uma negação sempre maior da natureza que volta a oferecer uma saída diante das agruras da crise. E o faz com aquilo que lhe é primeiro e essencial, a terra, o elemento mais fecundo de tudo o que nos cerca”, escreveu o arquiteto Roberto Pontual.
Quando, nos anos 1930, Lúcio Costa projetou uma vila operária, em Monlevade, toda em taipa de pau-a-pique, escreveu: “...faz mesmo parte da terra, como formigueiro, figueira-brava e pé-de-milho – é o chão que continua... Mas justamente por isso, por ser coisa legítima da terra, tem para nós, arquitetos, uma significação respeitável e digna, enquanto que o pseudomissões, ‘normando ou colonial’, ao lado, não passa de um arremedo sem compostura”. E aconselha: devia ser adotada para casas de verão e construções econômicas de um modo geral. É uma técnica muito mais barata, atende aqueles casais remediados que desejam uma casinha de campo. O projeto de Lúcio Costa, claro, não foi aceito pela Belgo Mineira.
O Cydno vai projetar a minha casa de taipa. Vou querer na casa uma lareira, um fogão a lenha e uma vassoura daquelas de gravetos. Uma árvore frondosa por perto, pode ser flamboyant, um gramado na sombra para piquenique, contemplação ou leitura. Também dizia meu pai, nas coisas mais simples está o sentido da vida.
Ana Miranda nasceu em 1951 em Fortaleza, Ceará. Parte de sua infância e juventude passou em Brasília (1959/1969) morando no Rio de Janeiro desde então. Sua vida literária teve início  em 1978 com a publicação de um livro de poesias. Seu primeiro romance, "Boca do Inferno", foi publicado em 1989, obra que já foi traduzida nos Estados Unidos, Inglaterra, França, Alemanha, Itália, Espanha, Suécia e Holanda, entre outros países. Recebeu o Prêmio Jabuti de Revelação em 1990. Escreve roteiros cinematográficos, ensaios e resenhas críticas para jornais e revistas, além de realizar palestras em universidades e outras instituições.
http://www.releituras.com/anamiranda_menu.asp

sábado, 7 de maio de 2011

Um pouco de História da Bahia

Resumo da Obra

Caramuru

Santa Rita Durão

Poema Épico do Descobrimento da Bahia é composto de dez cantos e, de acordo com o gênero, divide-se em cinco partes: proposição, invocação, dedicação, narração e epílogo. Canto I Na primeira estrofe, o poeta introduz a terra a ser cantada e o herói - Filho do Trovão -, propondo narrar seus feitos (proposição). Na estrofe seguinte, pede a Deus que o auxilie na realização do intento (invocação), e da terceira a oitava estrofes, dedica o poema a D. José I, pedindo atenção para o Brasil, principalmente a seus habitantes primitivos, dignos e capazes de serem integrados à civilização cristã. Se isso for feito, prevê Portugal renascendo no Brasil. Da nona estrofe em diante, tem-se a narração. A caminho do Brasil, o navio de Diogo Álvares Correia naufraga. Ele e mais sete companheiros conseguem se salvar. Na praia, são acolhidos pelos nativos que ficam temerosos e desconfiados. Os náufragos, por sua vez, também temem aquelas criaturas antropófagas, vermelhas que, sem pudor, andam nuas. Assim que um dos marinheiros morre, retalham-no e comem-lhe, cruas mesmo, todas as partes. Sem saber o futuro, os sete são presos em uma gruta, perto do mar, e, para que engordem, são bem alimentados. Notando que os índios nada sabem de armas, Diogo, durante os passeios na praia, retira, do barco destroçado, toda pólvora e munições, guardando-as na gruta. Desde então, como vagaroso enfermo, passa a se utilizar de uma espingarda como cajado. Para entreter os amigos, Fernando, um dos náufragos, ao som da cítara, canta a lenda de uma estátua profética que, no ponto mais alto da ilha açoriana, aponta para o Brasil, indicando a futuros missionários o caminho a seguir. Um dia, excetuando-se Diogo, que ainda estava enfermo e fraco, os outros seis são encaminhados para os fossos em brasa.

Todavia, quando iam matar os náufragos, a tribo do Tupinambá Gupeva é ferozmente atacada por Sergipe. Após sangrenta luta, muitos morrem ou fogem; outros se rendem ao vencedor que liberta os pobres homens que desaparecem, no meio da mata, sem deixar rastro. Canto II Enquanto a luta se desenvolve, Diogo, magro e enfermo para a gula dos canibais, veste a armadura e, munido de fuzil e pólvora, sai para ajudar os seis companheiros que serão comidos. Na fuga, muitos índios buscam esconderijo na gruta, inclusive Gupeva que, ao se deparar com o lusitano, saindo daquele jeito, cai prostrado, tremendo; os que o seguiam fazem o mesmo; todos acham que o demônio habita o fantasma-armadura. Álvares Correia, que já conhecia um pouco a língua dos índios, espera amansá-los com horror e arte. Levantando a viseira, convida Gupeva a tocar a armadura e o capacete. Observa, amigavelmente, que tudo aquilo o protege, afastando o inimigo, desde que não se coma carne humana. Ainda aterrorizado, o chefe indígena segue-o para dentro da gruta, onde Diogo acende a candeia, levando-o a crer que o náufrago tem poder nas mãos. Sob a luz, vê, sem interesse, tudo que o branco retirara da nau. Aqui, o poeta, louva a ausência de cobiça dessa gente. Entre os objetos guardados pelos náufragos, Gupeva encanta-se com a beleza da virgem em uma gravura. Tão bela assim não seria a esposa de Tupã? Ou a mãe de Tupã? Nesse momento, encantado pela intuição do bárbaro, Diogo o catequiza, ganhando-lhe, assim a dedicação. Saindo da gruta, o índio, agora manso e diferente, fala a seu povo Tupinambá, ao redor da gruta. Conta-lhes sobre o feito do emboaba, Diogo, e que Tupã o mandara para protegê-los. Para banquetear o amigo, saem para caçar. Durante o trajeto, Álvares Correia usa a espingarda, aterrorizando a todos que exclamam e gritam: Tupã Caramuru! Desde esse dia, o herói passa a ser o respeitado Caramuru - Filho do Trovão. Querendo terror e não culto, Diogo afirma-lhes que, como eles, é filho de Tupã e a este, também, se humilha. Mas que como filho do trovão, (dispara outro tiro) queimará aquele que negar obediência ao grande Gupeva. Nas estrofes seguintes, o poeta descreve os costumes da selva. Caramuru instala-se na aldeia, onde imensas cabanas abrigam muitas famílias, que vivem em harmonia. Muitos índios querem vê-lo, tocá-lo. Outros, em sinal de hospitalidade, despem-no e colocam-no sobre a rede, deixando-o tranqüilo. Paraguaçu é uma índia, de pele branca e traços finos e suaves. Apesar de não amar Gupeva, está na tribo por ter-lhe sido prometida.

Como sabe a língua portuguesa, Diogo quer vê-la. Após o encontro os dois estão apaixonados. Canto III À noite, Gupeva e Diogo conversam sob a tradução feita por Paraguaçu. O lusitano fica pasmo ao saber que, para o chefe da tribo, existe um princípio eterno; há alguém, Tupã, ser possante que rege o mundo; aquele que vence o nada, criando o universo. O espírito de Deus, de alguma maneira, comunica-se com essa gente. Gupeva eloqüente fala acerca da concepção dos selvagens sobre o tempo, o Céu, o Inferno. Abordam a lenda da pregação de S. Tomé em terras americanas. Concluindo a conversa, o cacique diz que estão para ser atacados pelos inimigos; Caramuru aconselha-o a ter calma. De repente, chegam os ferozes índios Caetés que, ao primeiro estrondo do mosquete, batem em retirada, correndo, caindo; achando, enfim, que o céu todo lhes cai em cima. Canto IV O temido invasor noturno é o Caeté, Jararaca, que ama Paraguaçu perdidamente. Ao saber que ela esta destinada a Gupeva, declara guerra. Após o ataque estrondoso do Filho do Trovão, Jararaca convoca outras nações indígenas com as quais tinha aliança: Ovecates, Petiguares, Carijós, Agirapirangas, Itatis. Conta-lhes que Gupeva prostrou-se aos pés de um emboaba pelo pouco fogo que acendera, oferecendo-lhe até a própria noiva. O cacique alerta-os que se todos agirem assim, correm o risco de serem desterrados e escravizados em sua própria terra, enchendo de emboabas a Bahia. Apela para a coragem dos nativos, dizendo que apesar do raio do Caramuru ser verdadeiro, ele nada teme, porque não vem de Deus. Não há forças fabricadas que a eles destruam.
A guerra tem início e Paraguaçu também luta heroicamente e, num momento de perigo, é salva pelo amado lusitano. Canto V Depois da batalha, os amantes discorrem sobre o mal que habita o ser humano e qual a razão de Deus para permiti-lo. Em seguida, em Itaparica, o herói faz com que todos os índios se submetam a ele, destruindo as canoas com as quais Jararaca pretendia liquidá-lo. Canto VI As filhas dos chefes indígenas são oferecidas ao destemido Diogo, para que este os honre com o seu parentesco. Como ama Paraguaçu, aceita o parentesco, mas declina as filhas. Na mata, o herói encontra uma gruta com tamanho e forma de igreja e percebe ali a possibilidade dos nativos aceitarem a Fé Cristã, e se dispõe a doutriná-los. Mais tarde, salva a tripulação de um navio espanhol naufragado e, saudoso da Europa, parte com Paraguaçu em um barco francês. Quando a nau ganha o mar, várias índias, interessadas em Álvares Correia, lançam-se nas águas para acompanhá-lo. Moema, a mais bela de todas, consegue chegar perto do navio Agarrada ao leme, brada todo seu amor não correspondido ao esquivo e cruel Caramuru. Implora para que ele dispare sobre ela seu raio. Ao dizer isso, desmaia e é sorvida pela água. As outras, que a acompanhavam, retornam tristes à praia. Nas demais estrofes do canto, a história do descobrimento do Brasil é contada ao comandante do barco francês. Canto VII Na França, o casal é recebido na corte e Paraguaçu é batizada com o nome da rainha Catarina de Médicis, mulher de Henrique II, que lhe serve de madrinha. Diogo lhes descreve tudo o que sabe a respeito da flora e fauna brasileira. Canto VIII Henrique II se predispõe a ajudar Diogo Álvares na tarefa de doutrinamento e assimilação dos índios, oferecendo-lhe tropa e recompensa. Fiel à monarquia portuguesa, o valente lusitano recusa tal proposta. Na viagem de volta ao Brasil, Catarina-Paraguaçu profetiza, prospectivamente, o futuro da nação. Descreve as terras da Bahia, suas povoações, igrejas, engenhos, fortalezas. Fala sobre seus governadores, a luta contra os franceses de Villegaignon, aliados aos Tamoios. Discorre sobre o ataque de Mem de Sá aos franceses no forte da enseada de Niterói e sobre a vitória de Estácio de Sá contra as mesmas forças. Canto XIX Prosseguindo em seu vaticínio, Catarina-Paraguaçu descreve a luta contra os holandeses que termina com a restauração de Pernambuco. Canto X A visão profética de Catarina-Paraguaçu acaba se transformando na da Virgem sobre a criação do universo. Ao chegar, o casal é recebido pela caravela de Carlos V que agradece a Diogo o socorro aos náufragos espanhóis.

A história de Pereira Coutinho é narrada, enfatizando-se o apoio dos Tupinambás na dominação dos campos da Bahia e no povoamento do Recôncavo baiano. Na cerimônia realizada na Casa da Torre, o casal revestido na realeza da nação espanhola, transfere-a para D. João III, representado na pessoa do primeiro Governador Geral, Tomé de Souza. A penúltima estrofe canta a preservação da liberdade do índio e a responsabilidade do reino para com a divulgação da religião cristã entre eles. Na última (epílogo), Diogo e Catarina, por decreto real, recebem as honras da colônia lusitana.

http://www.culturatura.com.br/resumo/caramuru.htm

Disponível em maio de 2011.

Sabedoria milenar

Vaso Chinês

Uma velha senhora chinesa possuía dois grandes vasos, cada um suspenso na extremidade de uma vara que ela carregava nas costas.
Um dos vasos era rachado e o outro era perfeito. Este último estava sempre cheio de água ao fim da longa caminhada do rio até casa, enquanto o rachado chegava meio vazio.
Durante muito tempo a coisa foi andando assim, com a senhora chegando a casa somente com um vaso e meio de água.
Naturalmente o vaso perfeito era muito orgulhoso do próprio resultado e o pobre vaso rachado tinha vergonha do seu defeito, de conseguir fazer só a metade daquilo que deveria fazer.
Depois de dois anos, refletindo sobre a própria amarga derrota de ser 'rachado', o vaso falou com a senhora durante o caminho: 'Tenho vergonha de mim mesmo, porque esta rachadura que eu tenho faz-me perder metade da água durante o caminho até a sua casa...'
A velhinha sorriu:
Reparaste que lindas flores há somente do teu lado do caminho? Eu sempre soube do teu defeito e portanto plantei sementes de flores na beira da estrada do teu lado. E, todos os dias, enquanto a gente voltava, tu regava-as. Durante dois anos pude recolher aquelas belíssimas flores para enfeitar a mesa. Se tu não fosses como és, eu não teria tido aquelas maravilhas na minha casa.
Cada um de nós tem o seu próprio defeito. Mas é o defeito que cada um de nós tem, que faz com que nossa convivência seja interessante e gratificante. É preciso aceitar cada um pelo que é... E descobrir o que há de bom nele.'
Portanto meu "defeituoso" amigo/a, tenha um bom dia e lembre-se de regar as flôres do seu lado do caminho...e que tenhas muita paz.

Boas novas
Contribuição: Carmen Cinira

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Salvador e suas encostas

Deslizamentos de terra são eventos motivados por diversos fatores e que ocorrem em terrenos de relevos acidentados – de forma natural – ou em áreas cujos perfis naturais foram alterados pela realização de obras e serviços sem que os cuidados adequados tenham sido observados. Para situar melhor o nosso comentário estamos considerando nesse momento apenas os deslizamentos de terra ocorridos nas cidades, especialmente em Salvador.

Pesquisando um pouco vamos encontrar um importante trabalho de autoria do engenheiro Jean Gonçalves Santana intitulado “Acidentes com escorregamento de terra nas encostas de Salvador-Ba: Contexto histórico” que nos proporciona informações importantes sobre o tema.

De acordo com Santana, os organismos oficiais responsáveis têm registros de deslizamentos de terra datados de 1551, 1714, 1716, 1721, 1732,1748, 1754, 1795, 1797, 1813, 1846, 1868, 1878 e 1880. Aí o autor interrompe a relação para retornar a listar ocorrências em 1926, 1935, 1964, 1966, 1968, 1969, 1971, 1975, 1978, 1989, 1990, 1991, 1992, 1993, 1994, 1995, 1996, 1997, 1998, 1999, 2002 e 2004.

Como podemos ver esses eventos não são desconhecidos de ninguém. É claro que muitas contenções já foram executadas e varias encostas devidamente estabilizadas, porém, as populações menos favorecidas continuam a instalar as suas precárias moradias nas áreas disponíveis, as quais, coincidentemente, são áreas impróprias para a construção de habitações, que continuam a ser erigidas sob o olhar permissivo e inconsequente das autoridades que deveriam ser mais enérgicas nos processos de ocupação das terras de Salvador. São tragédias que se repetem por mais de 400 anos, conforme Santana demonstra no seu trabalho.

Portanto, as áreas e pontos de risco das encostas de Salvador precisam ter um programa que cuide das obras e serviços que precisam ser executados para que essas áreas e pontos deixem de ser de risco. As providências nesse sentido precisam ser tomadas continuadamente, não importa qual seja o governo de plantão. Alguém tem de chamar a si essa responsabilidade, seja ele estadual ou municipal. Inadmissível é que todos os anos, ao começarem os períodos de chuvas intensas, a população que mora nas áreas e pontos de risco e que não têm para onde ir, pois não existe um programa realmente eficiente que resolva o problema habitacional da população de baixa renda, fique sujeita às ocorrências fatais e à perda do pouco que conseguiram construir e adquirir por insensibilidade e falta de vontade política dos governantes.

No dia 30 de junho de 2010, A Tarde on Line [1] informava: “Codesal registra cerca de 540 áreas de risco em Salvador”.

A Defesa Civil de Salvador (Codesal) informou nesta quarta-feira, 30, que existem cerca de 540 áreas de risco e 2.100 pontos de risco na capital baiana. A estimativa é que cerca de 100 mil pessoas estejam habitando as áreas de risco na cidade.

Alguns cuidados devem ser tomados pela população a fim de identificar os perigos oferecidos especialmente nos períodos de chuva. Sinais evidentes como rachaduras nos imóveis e nos terrenos podem significar um possível desabamento ou deslizamento de terra, principalmente para quem mora em encostas ou perto de rios e córregos.

Salvador é um município que não possui os recursos necessários para enfrentar todos os seus problemas. O município está quebrado. No dia 29, próximo passado, a Rede Dia [2] publicou o artigo que se segue, comprovando o que estamos dizendo:

Cidade completa 462 anos em crise financeira

Terceira maior cidade do Brasil, Salvador completa 462 anos nesta terça-feira (29) em meio a uma crise
financeira que afeta a prestação de serviços públicos e a popularidade do prefeito João Henrique (PP).

A capital baiana fechou 2010 com um rombo de R$ 276 milhões em caixa, o equivalente a cerca de 10% da arrecadação do município. Ou seja, sem dinheiro para pagar obrigações financeiras de curto prazo. É a pior situação de disponibilidade de caixa entre as 17 capitais com dados finais de 2010 disponíveis no Tesouro Nacional. As que ainda não tem os dados finais de 2010 são: Boa Vista, Brasília, Cuiabá, João Pessoa, Macapá, Maceió, Manaus, Palmas, São Paulo e Teresina.[2]

Esta é a situação e as chuvas virão de novo, vale a pena lembrar. Vale lembrar também que “O desconhecimento da história, dizem, nos leva a repetir os erros do passado. Mas, também, a dizer o que já foi dito, pensar o que foi pensado” (Palácios, 2010) [3] Portanto, não se precisa inventar nada, a solução existe e já foi amplamente testada. Só não é empregada porque não há interesse. Tendo em vista que a falta de recursos é um fato consumado, porque não se buscar soluções alternativas, consideradas não convencionais e que sejam mais baratas? Nos países do oriente – China, Índia, Japão, Indonésia, Nepal, etc. -, e em outros das Américas – Colômbia, Equador, Costa Rica, Cuba, etc. (países que sofrem com terremotos) -, o bambu é um agente natural inigualável de controle da erosão, uma vez que, o seu sistema especial de raízes cria uma verdadeira malha flexível, constituindo-se num mecanismo eficaz de fixação do solo, evitando o desmoronamento das margens dos cursos d´água, de proteção das áreas desflorestadas – evitando-se o surgimento das voçorocas – e, por conseguinte, de encostas e de taludes. O trabalho efetuado pelos rizomas (raízes), que se espalham bastante por toda a área e reforça, sobremaneira, o solo, evitando a formação dos “rios de lama”, criados pelas águas das chuvas e material carreado, que levam ao enfraquecimento dos taludes e contribuem decisivamente para os escorregamentos dos mesmos.

Além desse reforço, o bambu proporciona uma proteção adicional à área por ele recoberta. Devido à forma das suas folhas, ao grande dossel criado pelas touceiras, à flexibilidade dos colmos e à deposição das folhas que caem sobre o solo, calcula-se que esse sistema, intercepte até 25% (vinte e cinco por cento) do volume de precipitação pluviométrica, evitando o seu impacto direto com o solo e não permitindo os processos de erosão maciça, ao contrário das bananeiras, comumente plantadas nessas ocupações irregulares, que produzem um efeito altamente negativo, haja vista que as suas raízes por diversos motivos, não exercem o papel de elementos estruturadores do solo e sim de desagregadores.

No Brasil já se estão empregando os bambus com essa finalidade de proteger e conter taludes e encostas há algum tempo. Na Bahia, na área de contenção de taludes, trabalhos importantes foram realizados, destacando-se as proteções de barragens situadas em São Desidério e Correntina há cerca de dez anos, estão “funcionando” perfeitamente e foi baratíssimo em relação aos processos tradicionais que, inclusive, alguns deles foram empregados e não aprovaram.

Não estamos advogando a substituição de todos os processos tradicionais de contenção pela contenção com bambu; existem situações em que esse método não se aplica. Porém, porque não usá-lo aonde seja viável? Se existem dúvidas quanto à sua eficiência, o mesmo é tão barato que não custa tentar, uma vez que não existem recursos para a aplicação de outras soluções. Além do mais, a própria comunidade poderia ser envolvida no processo, gerando então trabalho e renda.

Virgilio de Senna
Arquiteto
Em 04.04.2011

[1] http://www.atardeonline.com.br/cidades/noticia.jsf?id=4716889
[2] Fonte: Último Segundo
http://www.diasalvador.com/noticia/5912/cidade+completa+462+anos+em+crise+financeira
[3] Gonçalo Armijos Palácios
http://www.jornalopcao2.com.br/index.asp?secao=Ideias&subsecao=Colunas&jornal=410